terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A Wilson Simonal.




Samba do Carioca

-o trem que eu perdi era uma cobra sem proa ou popa.E que nunca se engolirá.

Olha, é difícil de negar que eu frequento as gafieiras de chão mais liso.Nem minha boina quadriculada é capaz de negar essa informação,que normalmente as boinas não saem contando para qualquer um.Entretanto sou um caso de estereótipo inesquecível,exemplo irrefutável,bom criolo da gargalhada amarela.
Nos tempos d'oiro em que me requebrava de Diodoro até o centro,blindado de correntes de ferro a balangar pelo pescoço,mapeando as gafieiras do Rio de Janeiro pela madrugada eu era mais conhecido do que os males do cigarro e da bebida.(os quais aliás até hoje desconheço)
A pança inchada é herança de um matrimônio com uma dona da zona sul.Meu segundo matrimônio.Sei.Não havia necessidade de me casar uma segunda vez e ainda pior sem o consentimento ou separação da Eliete,minha senhora de Senador Camará.Mas aquela desvairada tinha apito no samba dela.E que bonito é um corpo de mulher sambar,esquindô,esquindô sob a luz do luar!
Eu era capaz de reconhecer aquela mulher de costas,de longe....
Até depois de emagrecer durante uma temporada desaparecida eu era capaz de reconhecê-la sem olhar seu rosto,porque para mim ela era muito mais os batuques que eu sentia quando a via do que os cabelos de índia,o brinco de argola e o olhar cobiçoso que rodopiavam no salão do Elite.Abigail!
Isso pra não falar dos peitos mesmo.Abigail!
Então o casamento foi inevitável depois de muito atracamento pelas escuras esquinas do centro da cidade, encabulando mendigos e cotias do Capo de Santana.
Aquela mulher tinha brasa nas veias e a cerveja e cachaça só faziam o fogo crepitar mais impunemente.(já fornicamos no chão da Rio branco e o banheiro da gafieira era nosso pit stop mais corriqueiro).Eu fui mesmo fundo.Porque quando a gente é novo vai fundo nos problemas pra ter história pra contar,mas até que se possa rir dessas histórias muito se lamenta ...e como se morre afogado,meu Deus:
Primeiramente,ela não sabia sobre Eliete e a Eliete então.Essa foi a única a quem minha boina nada tinha contado.A nega não fazia idéia dos meus carnavais semanais e quando soube já era quinta e os garis recolhiam minhas cinzas.
Eliete trabalhava em Botafogo, em casa de família.
Lavava,passava,cozinhava e quando o Seu Orlandivo viu seu filho atingir certa idade,ou a idade certa (talvez até antes disso)Eliete foi seu presente.
Naquele tempo eu tinha ouvido muitas histórias de patrões que usavam as empregadas como "auxiliadoras para inauguração de relações humanas" de seus filhos, e por ser experiente de ouvido,andar muito com os antigos e aguentar muito tempo debaixo d'água eu sorri pra Eliete na tarde em que ela voltou pra casa após quebrar a promessa de castidade que vinha fazendo desde anos imemoráveis, e que manteve ao me conhecer,e manteve depois de nos conhecermos,e manteve depois do nosso casamento só vindo a quebra-la mesmo naquela tarde em que, despida, aguardara o meninote chegar do Santo Inácio.
Depois daquela tarde,Eliete voltava para casa com menor contenção de seus impulsos,mais decidida e bem humorada.Fazia piadas mais apimentadas do que o normal mas mesmo assim isto não despertava em mim desejo algum pela minha esposa.Se demorava mais no serviço,como ela também não me cobrava explanações sobre meus fins de semana, eu me limitava a alargar o sorriso e perguntar como havia sido o serviço?Como havia sido na igreja?E como havia sido.
Eliete escondia bem,bem como eu.
Se o que eu estava escondendo não estivesse sendo escondido dela eu diria que ela aprendia comigo.
Será que não foi?Me perguntou Ondina numa manhã dessas em que o Sol só vem pra nos cutucar no lençol.Dei-lhe logo um tabefe e quis saber se Ondina me tinha por alguma espécie de mané-comédia,palhaço ou otário?O problema era que Ondina era louca com meus tapas e só fui perguntar de verdade se ela achava que eu fazia papel de otário depois de acalmada nossa quarta troca ácida, violenta e sufocante de membros,enquanto eu cavucava o maço que ela tinha na gaveta do marido.
Ondina era uma peste de inteligente e se fazia constantemente de imbecil.Não andava com livros,não fumava em público e só libertava mesmo a inteligência numa pista de gafieira,trocando de pernas como se troca de notas em um trompete.(não é pra qualquer um)
Mas naquela hora vi uma coisa que nunca esteve lá,na respiração de Ondina.Na hora pensei ser a tal burrice fingida querendo parecer real de mais.Perguntei novamente.Se fazia papel de otário.Se minhas noites de gafieira eram papo na boca dos outros.Ondina se levantou,caminhou até a varanda de seu apartamento em Bonsucesso,completamente nua, e se espreguiçou com demora,depois sumiu na direção da cozinha,me conformei e tirei um cochilo imaginando qual seria o lanche.(Ondia cozinhava bem que só vendo)
Acordei com batidas na porta.Violentas,coisa boa não devia ser.O marido estava longe e tinha a chave de casa.
-Polícia!
Credo!
A jungusta batia a porta com toda aquela urgência sufocante.E diziam que iam arrombar.Depois avisei que já ia,e que quem ia era gente de bem,que não era dessas coisas...Numa porrada só a porta está escancarada e dois samangos me pegam de cuecas mesmo.
Disseram que não havia negócio,que os vizinhos me viram entrar ali na casa da morta.Eu digo que morta?Eles apontam pra janela e eu só vejo multidão lá embaixo aglomerada.
-Você,bacana é marido?Que porra é voce?
Não pude responder merda nenhuma.Minha visão estava pra lá de fora de foco,jamais seria capaz de bater uma partidinha de sinuca num momento daquele.Ondina,porra!
Quando casei com Eliete ela chorou,quando casei com Abigail ela deu cabo da vida!
Uma mulher terminada,o amor perfeito,teve início meio e fim.Desmaiei dizendo:
-Dessa ruiva vai ser brabo de esquecer.
Aos poucos eu repensava esta frase,e o cheiro de Ondina ainda estava em mim e de todas as coisas que já senti na vida o pior sentimento mesmo foi o de pensar que era só tomar um banho que este aroma nunca mais voltaria a atormentar meu olfato.
Estou sentado,engaiolado.
Com pouco ódio da polícia, afinal de contas eu estive lá.Gostaria também eu de solucionar este caso,mas a confirmação dos legistas de que foi suicídio viria em breve,o que veio antes foi um vulto alto.Com pisos barulhentos por causa do salto.
-Sua esposa.
Abigail não esperou abrirem a gaiola para me estapiar.Me pegou pelo colarinho e começou a me surrar.Não doia então eu deixava.Mordeu-me então a bochecha quase arrancando um pedaço aí os samangos tiveram que interferir.
Seu cabelo de índia sacudia e a puta estava irada!Gritava que me amava,quanto me amava,esbravejava os lugares em que me amou.Apontou-me dedos,disse que me engordou com boas comidas da zona sul,pediu o divórcio e se foi sem antes cuspir dentro de meu olho esquerdo.Naquela hora os batuques que sempre senti com aquela mulher me pareceram extra-africanos e ao mesmo tempo terríveis de modo que criou uma depressão de tal enormidade que precisei deitar novamente no leito em que estava e não contive as lágrimas de Ondina de rolarem cela a baixo.
-Sua esposa.
Desta vez gelei mesmo.
Ao ponto de parar tudo o que estava pensando.
Lá do escuro a silhueta baixinha da criola Eliete ia ficando mais clara.A nega me olhou nos olhos e me abraçou forte pra caralho.
Aí estava a resposta de Ondina:sim eu estava sendo um mané-comédia.Beijei minha esposa e ela disse que eu arrumasse minhas coisas pois partiria dali.Fiquei feliz e beijei muito mais ainda a minha esposa.(Esta noite eu descobriria seu sexo?)
Abandonamos a penitenciaria na hora em que mais repensei a minha vida em toda a minha vida.
Havia um carro bastante luxuoso na porta do presídio que mereceu que eu o namorasse por alguns segundos até que Eliete meteu a mão na maçaneta e abriu a porta.Fiquei sem entender,ela puxou o banco da frente olhando em meu olhos e perguntou se eu havia gostado do carro que o Landivinho tinha ganhado por não só se formar no terceiro ano mas também ter passado pra faculdade de direito.


video

Nenhum comentário: