terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ainda traduzindo como exercício de travessia




Quando eu fui para o cinema



Quando eu fui para o cinema e vi tudo nos preto-e-branco
            sentimentos que ninguém sentiu,
e escutei o público suspirando e soluçando com tudo das
           emoções que dentre eles ninguém sentiu,
e os vi se esfregando com paixão ascendente que dentre eles
            ninguém nem por um momento sentiu,
e os flagrei gemendo em closes de beijos, beijos em preto- e-
           branco que não poderiam ser sentidos,
foi como estar no paraíso, que eu estou certo tem uma  
              atmosfera branca
sobre a qual sombras de pessoas, personalidades puras
são elencadas em preto e branco, e movem-se
em êxtase plano, supremamente não sentido,
e paradisíaco.



D.H. Lawrence, do Livro Pansies. (1929.)



segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Pela saúde do raquítico teatro brasileiro: umas traduções emotivas de algumas das peças curtas de Samuel Beckett.





Em homenagem aos Cadernos de Teatro(revistas do Teatro O Tablado,do Rio de Janeiro,impressos pela Gráfica Editora do Livro)que nos deixaram órfãos do contato com textos curtos.
Esta é uma peça radiofônica , transmitida pela primeira vez pela  B.B.C, em 13 de Novembro de 1962. O Elenco foi o seguinte:
Grasnado       Felix Felton
Palavras         Patrick Magee
O produtor era Michael Bakeweel

segue um link com o texto original em inglês para que criticas sejam feitas a esta minha tradução emotiva : 
http://samuel-beckett.net/FosterWordsMusic.html


Palavras e Música
De Samuel Beckett.


Música : Pequena orquestra suavemente sintonizando.
Palavras : Por favor! ( Sintonizando. Mais alto.) Por favor!        (fim da sintonização) Quanto tempo mais enjaulado aqui na escuridão?(com delírio) Com você!(Pausa.) Assunto ...(Pausa) Assunto...preguiça .(Pausa. Chiado ao fundo, baixo.) Preguiça é de todas as paixões a mais poderosa paixão e de fato nenhuma paixão é mais poderosa do que a paixão da preguiça, este é o modo no qual a mente é mais afetada e de fato ___________ (Interrupção na sintonia. Alto, implorando.)Por favor! (sintonização vai morrendo. Como antes.) O modo no qual a mente é mais afetada e de fato em nenhum modo a mente é mais afetada do que neste, pela paixão é que nós entendemos um movimento da alma perseguindo ou fugindo real ou imaginado prazer ou dor prazer ou dor real ou imaginado prazer ou dor, de todos esses movimentos e quem pode numera-los de todos esses movimentos e eles são legião preguiça é o mais urgente e de fato por nenhum movimento é a alma mais instigada do que por isto por isto por isto e por nenhum movimento para e de por nenhum movimento da alma mais instigada do que por isto para e____________(Pausa) De.(Pausa) Escuta! ( Som distante de esfregação rápida de pés molhados em carpete.)Finalmente! (Esfregação fica mais alta. Interrupção de sintonia.) Schh!
Sintonização morre. Esfregação mais alta. Silencio
Grasnado – Joe.
Palavras – (humilde) Meu Senhor.
Grasnado – Bob.
Musica – Humilde se muta adsum.
Grasnado – Meus confortos! Sejam amigos!(Pausa.) Bob.
Musica – Como antes.
Grasnado – Joe.
Palavras- (como antes) Meu senhor.
Grasnado – Sejam amigos!(Pausa.) Eu estou atrasado, perdoe.(Pausa) O rosto. (Pausa longa) Na escada.(Pausa.) Perdoe. (Pausa) Joe.
Palavras –(como antes). Meu senhor.
Grasnado – Bob.
Musica – Como antes.
Grasnado – Perdoe.(Pausa) Dentro da torre.(Pausa) O rosto.(Longa pausa) Assunto desta noite ...(Pausa) Assunto desta noite ...amor.(Pausa) Amor.(Pausa)
Meu porrete.(Pausa) Joe.
Palavras –(como antes) Meu senhor.
Grasnado – Amor.(Pausa. Ruído do porrete no chão)Amor!
Palavras – (pomposo). Amor é de todas as paixões a mais poderosa paixão de fato nenhuma paixão é mais poderosa do que a paixão do amor. (limpa a garganta) Este é o modo no qual a mente é mais fortemente afetada e de fato em nenhum modo a mente é mais fortemente afetada do que neste.(Pausa.)
Grasnado – Rasga num suspiro. Baque de porrete.
Palavras – (como antes) Pela paixão é que nós entendemos um movimento da mente perseguindo ou fugindo real ou imaginado prazer ou dor.(Limpa a garganta.) De todos _____
Grasnado – (Angustiado). Ai !
Palavras – (Como antes) De todos estes movimentos então e quem pode numerá-los e eles são legião preguiça é o AMOR é o mais urgente e de fato por nenhuma maneira de movimento seria a alma mais urgente do que por isto, para e_________
Baque violento de porrete.
Grasnado – Bob!
Música – Como antes.
Grasnado – Amor !
Musica – Pancada seca de bastão no chão. Música suave digna do ocorrido, sons expressivos se misturam, som de gemidos e reclamações_______ ”Não!” “Por favor!”etc._____ vindas de Palavras. Pausa.
Grasnado – (angustiado) Ai!(Baque de porrete) Mais alto!
Musica: Alta pancada seca de bastão e como antes fortíssimo, com toda expressividade, afogando as reclamações de Palavras. Pausa.
Grasnado – Meus confortos. (Pausa) Joe querido.
Palavras – (como antes) Surge depois e vai agora o manifesto irrespondível __________
Grasnado – Gemidos.
Palavras-______ Para a inteligência este amor o que é esse amor que mais do que todos os amaldiçoados de morte ou qualquer outro de seus grandes movedores então move a alma e alma o que é esta alma que mais do que por qualquer de seus grandes movedores é por amor então movida?(Limpa a garganta. Prosaico) Amor de mulher, quero dizer ,se é isso o que meu Senhor quer dizer.
Grasnado – Ai de mim!
Palavras – O que? (Pausa. Muito retórico) é amor a palavra?  (Pausa. Faz.) é alma a palavra?(Pausa. Faz.) Queremos dizer amor, quando dizemos amor?(Pausa. Pausa. Faz.) Alma, quando nós dizemos alma?
Grasnado – (angustiado). Ao! Bob querido.
Palavras – Queremos? (com súbita gravidade.) Ou não queremos?
Grasnado – (implorando) Bob!
Musica – Baque de porrete. Música de amor e alma, com as reclamações tão audíveis como antes_______ “Não!” “Por favor” ”Paz!” etc . De Palavras. Pausa.
Grasnado (angustiado) – Oh!(Pausa.) Meus bálsamos!(Pausa.) Joe.
Palavras(humilde)-  Meu senhor.
Grasnado – Bob.
Musica – Adsum como antes.
Grasnado – Meus bálsamos! (Pausa.) Idade. (Pausa, baque de porrete.) Joe.
Palavras(como antes) – Meu senhor!
Grasnado – Idade!
         Pausa
Palavras- (indeciso)- Idade é ... idade é quando ... velha idade eu quero dizer...se isso é o que meu senhor quer dizer...é quando ...se você é um homem ... era um homem ... amontoado... acenando . . . o eixo. . .
esperando_________
Baque violento de porrete.
Grasnado – Bob.(Pausa) Idade.(Pausa. Baque violento de porrete.) Idade!
Música: Pancada de bastão. Música de idade, logo interrompida por baque violento.
Grasnado – Juntos.(Pausa. Baque.) Juntos! (Pausa. Baque violento.) Juntos cães!
Musica: Longo La.
Palavras (implorando)- Não!
Baque violento!
Grasnado- Cães!
Musica – La.
Palavras – (tentando cantar) Como é quando . . . para um homem . . .
Música – Desenvolve o que propôs anteriormente.
Palavras (tentando cantar) Idade é quando para um homem  . . .
Música – Sugere tema para acompanhamento.
Palavras – (tentando cantar o sugerido.) Amontado sobre. . . o eixo. . .(Pausa. Baque violento. Tentando cantar.) Esperando pela bruxa para por a . . . panela . . . na cama . . .
Música – Sugere tema para acompanhamento
Palavras – (canta tentando acompanhar) – E trazer a araruta . . . (Pausa. Violento baque como antes.) E trazer o toddy . . .
Pausa.  Tremendo baque .
Grasnado – Cães !
Música – Sugere tema para acompanhamento
Palavras (tentando cantar como sugerido.)- Ela vem nas cinzas . . . (implorando) Não!
Música  -  Repete a sugestão.
Palavras (tentando cantar o sugerido) Ela vem nas cinzas alguém amado não poderia ser . . . vencido ou . . .
Pausa.
Musica : - Repete o fim da última sugestão.
Palavras – (tentando cantar o sugerido) – Ou vencido não amado . . . (cansadamente.) . . . ou algum outro problema . . . . (Pausa. Tentando cantar.) Vem nas cinzas como aquela velha luz . . . sua face . . .nas cinzas . . .
Pausa.
Grasnado: Geme.
Musica – Sugere tema para acompanhamento.
Palavras: (tentando cantar o sugerido.) – Aquela velha lua cheia . . . sobre a terra . . . de novo.
Pausa.
Musica: – Sugestão muito breve.
Silencio.
Grasnado – Geme.
Música : Soa sozinha no ar, depois convida Palavras com introdução, pausa , convida de novo e finalmente acompanha muito suavemente.
Palavras: – (tentando cantar suavemente).
       Idade é quando para um homem
       Amontoado sobre o eixo
       Se tremendo pela bruxa
       Para por a panela na cama
       E trazer o toddy
       Ela vem nas cinzas
      Alguém amado não poderia ser vencido
      Ou vencido não amado
      Ou algum outro problema
           Vem nas cinzas
       Como naquela velha luz
      O rosto nas cinzas
     Aquela velha luz estelar
     Sobre a terra de novo.

 Longa pausa.
Grasnado: – (murmura). O rosto .(Pausa.) O rosto .(Pausa.) O rosto.(Pausa.) O rosto.
Baque de porrete e som acalentadoramente  sentimental, por quase um minuto.
Pausa.
Grasnado: – O rosto.
Palavras : (frio.) Visto de cima naquele brilho tão gelado e desmaiar . . .
Pausa.
Musica: Sugestão acalentadora de antes é retomada.
Palavras: (desrespeitando, frio.) – Visto de cima de ângulos tão próximos naquele brilho tão gelado e desmaiar com olhos tão diminuídos pelo . . .o que tenha passado . . . isso é um tanto . . . beleza penetrante é um um pouco . . .
Pausa.
Musica: Relança timidamente a sugestão anterior.
Palavras:(interrompendo, violentamente.) Paz!
Grasnado :– Meus confortos! Sejam amigos!
Pausa.
Palavras:  . . . escasso. Alguns momentos mais tarde entretanto, tais são os poderes de recuperação nessa idade, a cabeça é arrastada para trás em uma distancia de dois ou três pés , os olhos arregalados para uma encarada e começar o banquete de novo .(Pausa.) O que então é visto seria melhor visto na luz do dia, isso é incontestável. Mas com que frequência isso tem sido , com que frequência, de todas as horas, sob todos os ângulos, entre nuvem e luz, sido visto eu quero dizer. E será que existe, ou será que não existe ,naquela claridade de prata . . . aquela claridade de prata . . . será que não existe . . . meu Senhor . . . (Pausa.) Agora e depois o centeio, balançado por um vento leve, molda e abandona sua sombra.
Pausa.
Grasnado: Geme.
Palavras:-  Deixando de lado os aspectos de lineamentos adequados, imbatíveis individualmente em suas jurisdições_____
Grasnado: – Geme.
Palavras: -  ______ chama do cabelo preto e desordenado tão firme bem espalhado na água , as sobrancelhas tricotadas num entalhe sugerindo dor mas simplesmente concentração tendendo mais para todas as coisas consideradas em algum consumado processo interior, os olhos é claro fechados para preservar com isso, os cílios(pausa) . . .  o nariz  . . .(pausa) . . . nada, um pouco apertadinhos talvez . . .os lábios. . .
Grasnado: – (angustiado) – Lilly!
Palavras: - . . . apertado, um brilho de mordida de dente na parte de baixo, nenhum coral, nenhum inchaço, já que normalmente . . .
Grasnado: - Geme.
Palavras : - .  .  . o todo tão esbatido e ainda que não fosse isso  para a enorme branca ascensão e queda dos peitos, se espalhando enquanto eles montam e depois subsidiando a natureza deles . . . abertura__________
 Musica : Ruído irreprimível de música de espalhando e de subsidiando misturados a vagas reclamações ___ “Paz!” “Não!” “Por favor!” etc.- de Palavras. Triunfa e conclui.
Palavras:(gentil e expositivamente.) Meu Senhor! (Pausa. Vem barulho de porrete.) Eu concluo, tão pálido e ainda tão estuprado que isso parece não mais a terra do que Mira dentro da Baleia, quando estava em sua décima e máxima magnitude nessa noite particular e brilhando geladamente abaixo ___ e, como dizemos, olhando para cima. (Pausa.) Alguns momentos mais tarde entretanto, tais são os poderes________
Grasnado:(angustiado) Não!
Palavras: - as sobrancelhas desnubladas, um pedaço dos lábios e os olhos  . . . (pausa) . . . as sobrancelhas desnubladas, as narinas dilatadas, um pedaço dos lábios e os olhos . . .(pausa) . . . uma pequena cor retorna às bochechas  e os olhos . . . (de maneira reverente) . . . abertos.
(Pausa.) Depois pra baixo por um pequeno caminho . . . .(Pausa. Muda para timbre poético. Baixo.)




Depois para baixo por um pequeno caminho
Atravessando o lixo
Para onde . . . em direção de onde . . .

Musica : Discreta sugestão para acima.
Palavras : -(tentando cantar a sugestão)

Depois para baixo por um pequeno caminho
Atravessando o lixo
Para onde . . . em direção de onde . . .
Pausa.
Musica: Discreta sugestão para acompanhamento.
Palavras : -(tentando cantar a sugestão)

Tudo escuro sem esmolas
Sem entregas sem palavras
Sem senso sem necessidade . . .
Pausa.
Música: Sugestão mais confiante para acompanhamento.
Palavras: --(tentando cantar a sugestão)

Atravessando a escória
Para baixo por um pequeno caminho
Para onde um vislumbre
Daquela boca de carga.

Pausa.
Musica: Convida com introdução, pausa, convida novamente e finalmente acompanha muito suavemente.
Palavras: - (tentando cantar, suavemente.)







Depois para baixo por um pequeno caminho
Atravessando o lixo
em direção de onde
Tudo escuro sem esmolas
Sem entregas sem palavras
Sem senso sem necessidade
Atravessando a escória
Para baixo por um pequeno caminho
Para onde um vislumbre
Daquela boca de carga.

(Pausa. Chocado.) Meu Senhor! (som da clava deixada cair. Como anterior.) Meu Senhor! ( Esfregações no carpete com interrupções .Elas vão morrendo .Longa pausa.) Bob.(Pausa.) Bob!
Música: Breve resposta grosseira.
Palavras : Música.(implorando.) Musica!
Pausa.
Musica: Baque de porrete misturados com frases que foram mencionadas antes ou apenas boca de carga.
Pausa.
Palavras : -De novo! (Pausa. Implorando.) De novo!
Música : Como antes ou apenas muito suavemente variado.
Pausa.
Palavras:- Suspiro profundo.

                             Cortinas



                                                     

Segue Abaixo a montagem musical,em duas partes, dessa peça pelo compositor americano Morton Feldman. Para quem curte um teatro musical :



Parte um:
Parte dois:




sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sexta Feira 13 de 2013

II 
        O EXAME DA MEIA-NOITE

Meia-noite. O relógio soa
E nos induz, em tom mordaz,
A recordar que uso fugaz 

Fizemos do dia que escoa:
- Hoje, treze, data fatal, 

Sexta-feira, nos comportamos, 
Malgrado tudo o que exaltamos, 
Como discípulos do mal;

Contra Jesus, o mais glorioso 
Dentre os deuses, temos pecado! 
Como um parasita sentado
À mesa de um Creso monstruoso, 

Cada um de nós, gratos à Besta, 
Do Demônio a súdita eleita, 
Insulta aquilo que respeita
E adula aquilo que detesta;

Ao humilde o nosso desdouro 
Mostramos com dura arrogância; 
Saudamos a enorme Ignorância, 
Com sua cabeça de touro; 
Beijamos a torpe Matéria
Com toda a nossa devoção, 
E abençoamos da podridão 
A bruxuleante luz funérea.

Enfim, para afogar de vez
A vertigem no que delira,
Nós, os sacerdotes da Lira,
Cuja glória é louvar a ebriez
Do que a morte acaso dissolva, 

Sem apetite algum comemos...
- Depressa, a lâmpada apaguemos 

Para que a treva nos envolva! 






de "Novas Flores do Mal" de " As flores do mal" de Charles Baudelaire. Traduzido por Ivan Junqueira.




L'Examen de minuit

La pendule, sonnant minuit,
Ironiquement nous engage
À nous rappeler quel usage
Nous fîmes du jour qui s'enfuit:
— Aujourd'hui, date fatidique,
Vendredi, treize, nous avons,
Malgré tout ce que nous savons,
Mené le train d'un hérétique.

Nous avons blasphémé Jésus,
Des Dieux le plus incontestable!
Comme un parasite à la table
De quelque monstrueux Crésus,
Nous avons, pour plaire à la brute,
Digne vassale des Démons,
Insulté ce que nous aimons
Et flatté ce qui nous rebute;

Contristé, servile bourreau,
Le faible qu'à tort on méprise;
Salué l'énorme Bêtise,
La Bêtise au front de taureau;
Baisé la stupide Matière
Avec grande dévotion,
Et de la putréfaction
Béni la blafarde lumière.


Enfin, nous avons, pour noyer
Le vertige clans le délire,
Nous, prêtre orgueilleux de la Lyre,
Dont la gloire est de déployer
L'ivresse des choses funèbres,
Bu sans soif et mangé sans faim!...
— Vite soufflons la lampe, afin
De nous cacher dans les ténèbres!
— Charles Baudelaire
























sexta-feira, 6 de setembro de 2013

7 de setembro de 2013


Segundo Dia 




Sou anarquista.Declaro honestamente 
(a tarde vai cerzindo no recreio   
o pano de entrecortada confissão.) 
Espanto, susto. Como? 
O que? Por que? Explica essa besteira. 

A solução é a anarquia.Sou 
anarquista. Nem de longe vocês captam 
o sublime anarquismo.Sou. 
Com muita honra.Mas vocês ,que são? 
Vocês são uns carneiros 
de lã obediente. 

Zombam de mim. Me vaiam: Anarquista 
a-nar-quis-tá   a-nar-quis-ta-tá! 
(Medo de mim,oculto em gozação?) 
O bicho mau,o monstro repelente 
conspurcando o jardim de Santo Ignácio. 

Avançam.Topo a briga. 
Me estraçalho lutando contra todos. 
Furor mil. Morro ensanguentado. 
Não. Não mato algum. Nem me 
tocam sequer. Negro e veloz,
chegou a tempo o Padre,e me 
salva do massacre porém não 
do apelido : 


             o Anarquista.   





Carlos Drummond de Andrade . ( Esquecer Para Lembrar - Boitempo 1.)

                                                          PUERI DOMUS





esta criança brincando de luta
desprotegida da lua aos
pés de Santa Tereza sou eu! Você já usou o minuto para 
considerar que enquanto você usa o minuto para
considerar:
um garoto bem pequeno está encontrando
seu rosto contra o chão em sua                   –eterna-
primeira queda de skate na Pça Roosevelt?
Este garoto também sou ele. Sou também
aquele nóia pichando versos pueris
do tipo “eu vi seu nome escrito
na bunda do mosquito.”
por cima da parede 
chapiscada onde se escora a existência.

Na última lágrima que o último capítulo da nove-
la arranca da Dona de casa antes que
ela volte a se dar conta do horror da vida real ,
há uma manifestação                                     – que começou pacífica-

de minha presença danadamente eterna e
eternamente danada .